O Vento que Decidirmos Ser

por José Luís Nunes Martins 

Uma das mais importantes escolhas que cada um de nós deve fazer é a de escolhermos qual o foco prin-cipal da nossa atenção e cuidado. Se o mundo à nossa volta, a fim de o mudar, ou se o interior de nós mesmos.

Quase todos os bens e males da nossa existência partem do nosso interior, pelo que será aí que importa aperfeiçoar, de forma profunda, tudo o que existe no nosso íntimo.

Um dos trabalhos mais importantes de cada um de nós será o de saber bem o que queremos. O segredo da felicidade pode estar aí: alterar em nós o que nos possa estar a causar desnecessárias ansiedades. Quantas vezes desejamos algo que está fora da nosso controlo?

Existem três tipos de coisas: as que dependem apenas de nós; as que escapam por completo à nossa decisão; e, aquelas sobre as quais temos algum controlo, mas não total.

Se fizermos a nossa alegria depender de algo que não está na nossa mão, então será fácil que nos sinta-mos roubados de algo que, na verdade, nunca foi nosso. Mesmo nos casos em que o conseguimos obter, a ansiedade associada à posse, até pela iminência de o perder da mesma forma que o ganhámos, é algo que perturba de forma séria a nossa liberdade e a nossa tranquilidade.

Não faz muito sentido que percamos o nosso tempo todo a tentar conquistar o que não depende de nós. Será uma futilidade e uma perda de energia e tempo que podia e devia ser utilizado naquilo que é essen-cial e está ao alcance da nossa mão.

Se eu for capaz de moderar os meus desejos, procurando valorizar mais o que tenho em vez de buscar o que não tenho, se eu for capaz de fazer tudo o que está ao meu alcance a fim de melhorar a minha vida, mais do que esperar por um milagre qualquer que me coloque nas mãos aquilo pelo qual não lutei, então estarei no caminho certo e serei bem mais feliz, ainda que não chegue aos patamares que sonho. Porque, ainda assim, terei chegado mais alto do que aqueles, em vez de se levantarem, preferem ficar deitados à espera que as suas fantasias se realizem sozinhas.

Algo que está nas nossas mãos é a possibilidade, e o dever, de estabelecermos os nossos objetivos. O que pretendemos alcançar e o que estamos dispostos a fazer a fim de os conseguir. Outra dimensão es-sencial e que depende apenas de nós, é o conjunto dos nossos valores, bem como a determinação de viver de acordo com eles. Os nossos objetivos e valores deviam ser um ponto central da nossa preocupa-ção diária. Atribuir o devido valor a cada coisa pode poupar-nos a muito sofrimento…

A importância para nós de tudo o que há no mundo, interior e exterior a nós, é definida por cada um. Sou eu que valorizo ou desvalorizo um objeto, uma atitude, ação ou mesmo uma pessoa. A forma como olho para o mundo altera-o e altera-me a mim. Podemos aprender a escutar e a compreender de uma forma diferente e, com isso, mudarmos boa parte do mundo em que vivemos.

Se amanhã fará sol ou chuva não deve ser uma preocupação minha. O que posso, quero e devo fazer… sim, devia preocupar-me hoje e ocupar-me amanhã! Para ser feliz, devo fazer o que está hoje ao meu alcance… quanto ao resto, ainda que não cumpra a minha expectativa, não tem que ser alguma coisa que me frustra por completo… serei feliz, pois tê-lo-ei merecido. Apesar de tudo, mais vale merecer o que se não tem do que ter o que se não merece… afinal, é melhor ser cego do que ter olhos e não querer ver…

Há que estabelecer metas, interiores e exteriores. Procurando levar ao limite as nossas forças e talentos.

Já há muita gente infeliz, os que se preocupam mais em ser amados do que em amar, não fazendo nada para sequer se tornarem amáveis…

A felicidade depende do que eu decidir ser no meu íntimo, assim como também depende do mal que eu posso impedir-me de escolher. Sermos bons, humildes e diligentes depende apenas de nós. Só de nós. Se não o chegarmos a ser, a responsabilidade é nossa. Nenhum de nós será feliz por circunstância, mas sempre devido a um conjunto de escolhas profundas… que nos definem… tal como queremos ser.

Rumo ao melhor de mim, não é o vento que me leva, mas a minha vontade de ir.

 

(ilustração de Carlos Ribeiro)

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