Pastoral dos Solteiros (II): Casamento também é vocação

por António Pimenta de Brito (Jantar conferência: "Ser Solteiro: situação temporária dolorosa ou uma oportunidade?", 17.05.19, Seminário de Nossa Senhora de Fátima, Alfragide)

Segundo o Papa Francisco, na última encíclica “Christus Vivit”(CV, 256), a vocação “trata-se, em suma, de reconhecer para que fui criado, qual o sentido da minha passagem por esta terra, qual o projeto do Senhor para a minha vida”. É frequente ouvirmos em Igreja que há um “decréscimo nas vocações”, também este mês, na semana de oração pelas vocações, e esta constatação refere-se comummente às sacerdotais ou religiosas. É um facto, como corrobora este artigo deste ano do site Aleteia, o site católico maior do mundo. Há um decréscimo acentuado ao nível global, sobretudo nas vocações consagradas femininas, e isso não é bom, pois são pessoas muito necessárias no nosso mundo, para os católicos e não só.

No entanto, uma leitura mais atenta do artigo ressalta algo de sintomático. O título da notícia remata com “vocações caíram”, contudo lemos no conteúdo da mesma que, por exemplo, “houve, por outro lado, “crescimento acentuado” na quantidade de agentes pastorais: diáconos permanentes, catequistas e missionários leigos”. Mas afinal, não tinham decrescido? Ou estas vocações não são “vocações”? E o matrimónio? Nem sequer constam no artigo números sobre o mesmo, se aumentou ou decresceu.

Sabemos até que em Portugal, não só os casamentos católicos decresceram, de 70% dos casamentos totais em 1990 para o oposto, 30% dos casamentos totais em 2018. E mais, os divórcios católicos superam os de casamentos civis consecutivamente todos os anos desde, pelo menos, o ano de 2007, altura em que se dá o ponto de inflexão, ou seja, começa a haver mais casamentos civis do que católicos. Chegando ao ano de 2017, registamos quase 100 divórcios por cada 100 casamentos católicos realizados. Por fim, ao nível Europeu, Portugal regista o número mais alto de divórcios, 70 em cada 100, em 27 países. Basta consultar os dados da PORDATA e está lá tudo.

Este substantivo usado no título da notícia e de forma isolada referindo-se apenas a vocações para o celibato – “vocações” - é apenas um resumo inofensivo ou sinal de como tratamos habitualmente este tema, não só em Portugal?

Gostaria de deixar uma ressalva, eu gosto muito deste site e penso que faz um serviço incrível à sociedade, pois, além de ter um conteúdo religioso, também é de utilidade para alguém que não professa nenhuma religião.

De resto, a “semana de oração pelas vocações”, sem o ser só para falar das vocações consagradas, acaba por o ser (pelo menos em muitos casos, não direi todos). Porque abordamos a temática do casamento quando se fala de “família” e a colocamos à parte no todo que é a conversa sobre a vocação? Ainda para mais, é o caminho para o qual a maioria é chamada por Deus. Em terceiro lugar, são os leigos, a maioria, a quem é pedida a intervenção social no mundo, cada um nas suas circunstâncias concretas, como nos fala a Doutrina Social da Igreja e tanto proclamou o Concílio Vaticano II. Ademais, bem diz o Papa na mesma encíclica que cito, que é essencial que a Pastoral Juvenil e a Familiar tenham uma “continuidade natural” (CV, 242).

Já é algo que se vê com bons exemplos, mas há que tratar mais o solteiro como “família” e não um “stuck in between”, nem jovem nem casado ou consagrado que, às vezes, parece que “não é carne nem peixe”. Esta condição de vida também é querida por Deus e esta pessoa é chamada à santidade aqui e já, nas suas circunstâncias específicas e não como uma “sala de espera” para algo que não sabe o que será. É já aqui, nas suas circunstâncias concretas, que pode crescer, ser feliz, servir e dar sentido à sua vida e à dos outros.

E porque se supõe que a vocação para a vida consagrada é que é, “a vocação”? Essa é que é a chamada “dura” e “exigente”? Basta falar com qualquer casado para saber que isso não é verdade, nem o “duro” e “exigente” é critério necessário para qualquer escolha vocacional. Aliás, se for só isso que alguém sente, deve-se questionar seriamente se será a sua vocação.

Por outro lado, talvez inconscientemente se pensa assim pois uma forma de alguém discernir o seu caminho é pela realidade. Se sempre sonhou casar e encontra uma namorada (o), gosta dele (a) e ambos têm um projeto de vida em comum, podem ambos ver aí sinais sérios de vocação. Por outro lado, um(a) jovem solteiro (a) que, por nenhuma razão em especial, ainda não encontrou ninguém, pode pensar que se calhar o seu caminho é o da vida consagrada. Não me parece que a vocação sacerdotal seja para quem não tem alternativa. Antes pelo contrário. Igualmente, não quer dizer que se a pessoa quer casar e não encontrou a pessoa numa fase mais jovem, não encontre mais tarde.

Há que ter em conta a realidade sociológica dos dias de hoje. Casa-se em média com 30 anos. Em termos pastorais, quem são estas pessoas? Jovens? Velhos? Como acompanhar os que “não são chamados ao matrimónio ou à vida consagrada”? (CV, 267); “devemos recordar sempre que a primeira e mais importante vocação é a vocação batismal”? (CV,267). Concordo com o Papa, mas se uma pessoa não encontrou uma daquelas vocações em “jovem” (um conceito difuso e que hoje em dia irá até aos 30?), porque não encontrará mais tarde? Mais: mesmo que a opção dos filhos já possa estar de parte, sendo que é ainda possível de forma natural até aos 40, sensivelmente, pode-se viver a fecundidade no casamento de mais formas. Não só dando mais atenção à relação com o cônjuge, mas que essa relação não fique fechada nos dois. Ter um papel de contributo na comunidade ou adotando filhos? Não seria uma forma de combater o decréscimo nas vocações consagradas? De quanto trabalho administrativo e não necessariamente espiritual estão sobrecarregados os padres? Seria uma ajuda preciosa. Aí podiam focar-se no seu ministério de orientar as almas.

Temos de ter consciência de que não só a idade de casamento é mais tarde para um número crescente de pessoas, como o mundo necessita muito de todos. Quanto dinamismo é necessário às comunidades e como solteiros e casais com mais disponibilidade poderiam com a sua criatividade e energia ajudar-nos todos a superar tantas crises e carências? Quantas crianças não amadas estão à espera de adoção? Quantos fetos abortados e que poderiam ser acolhidos por tantas famílias que o desejam? Quanta pobreza e exclusão social, em Portugal e no mundo todo, com necessidade de mãos e de abraços? Temos de nos adaptar às novas realidades e dar uma resposta de acordo.

E por isso defendo que a ajuda no discernimento vocacional deve ser feito apresentando as várias opções e a “semana de oração pelas vocações” não ser algo direcionado apenas para o sacerdócio mas para as várias opções. Sei que em teoria não é com certeza não há “má intenção”, mas deixo a sugestão de enfoque.

1)    Com a consideração igual das vocações para um solteiro;

2)    Ter em conta as novas realidades sociológicas, sobretudo a idade de casamento; os “jovens” já não são o que eram;

3)    Nenhuma vocação é “superior” à outra;

4)    O matrimónio é o caminho mais escolhido, pelo que deve ter outro lugar no trabalho pastoral. Mais formação, não necessariamente só “doutrinária” (CV, 214) e de “proselitismo”(CV, 211, 212), mas acompanhamento de amizade e de acolhimento, como diz o Papa;

5)    A temática da preparação para o casamento é fulcral, para contrariar os números citados;

6)    A temática do apoio às situações delicadas de divórcio, separação, também é muito importante, pois já vimos os números. O casamento não é uma instituição querida em Portugal e a Igreja também tem uma palavra a dizer e a reconhecer;

7)    Também é pedido mais apoio aos agentes pastorais que muitas vezes sacrificam a sua vida pessoal e profissional em prol dos outros

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