Viagens de um Solteiro: Dois passaportes?

por Marta Pimenta de Brito


Uma vez quando estava a viver nos EUA, recebi uma mensagem de uma amiga do Brasil a dizer que se ia casar. Escrevi–lhe de volta, "Não sei onde vou estar dentro de um ano, mas sei que estarei no teu casamento ". Apenas uma vez na vida, és convidada para o casamento da tua primeira estagiária. Ela tinha sido minha estagiária na Suíça. Uma menina impecável.

O tempo passou, voltei para Portugal. E um dia, enquanto viajava pela Ásia, recebo outra mensagem, perguntando "Marta, você vem ou não? Meu casamento é em um mês". "Sim, vou". Eu nem sabia como ia dizer no trabalho que tinha um casamento no Brasil. Mas eu sabia que estaria lá.

Mal cheguei a casa, comecei a procurar voos e reservei. Eu sabia que o meu voo era através dos EUA, mas não havia problema, eu costumava estar em trânsito.

A vida tornou possível, conseguir organizar uma viagem de trabalho ao Brasil exactamente nas mesmas datas. Dois dias antes da partida, enquanto conversava com colegas sobre a viagem, percebi contudo que tinha que estar em trânsito 8 horas na e 14 horas na volta.

Era a primeira vez que ia sozinha ao Brasil. Tinha ido apenas uma vez com a minha família quando era criança. Nós ouvimos tantas coisas, tanto crime, que tenho um pouco de medo, tenho que confessar. Sozinha, e eu quero ver a cultura, como posso organizar tudo?

Bem, pensa positivo e veste-te de forma simples para que ninguém perceba que és turista!

Chegada ao aeroporto de Nova York, a senhora da fronteira pergunta-me o que eu ia fazer ao Brasil. Eu disse a verdade, mas ela não acreditava. “E por que vem pelos EUA?”. Porque era mais barato. “Mas não há voo de Portugal para o Brasil?”. “Sim”. “Então, porque não aceitou?”. “Porque este era mais barato”. “E porque está a viajar com dois passaportes?”. “Este não é passaporte, é a minha agenda” (a minha agenda de Harvard e o passaporte são da mesma cor).

“Bem, espere um momento”. Ela chama um colega e pergunta: "Quanto tempo demora de Portugal para o Brasil?" Comecei a ficar nervosa, à espera que ela dissesse que não podia atravessar a fronteira dos EUA, à espera de não participar no casamento da minha amiga por causa de uma senhora estúpida.

Comecei a perguntar-lhe, “Não sabe onde fica o Brasil?”. “Claro que sim”. Ela começou a falar espanhol. Eu fiquei ainda mais nervosa, ela também era emigrante. Porque estava a ser tão má comigo? Comecei a relacionar esta atitude com a minha pobre aparência, calças de ganga velhas e sapatilhas, e uma mala que estava a perder peças desde que eu saí de casa.

Finalmente ela deixou-me passar. Mas eu estava tão nervosa, ela tinha sido tão má, todos estavam a olhar para mim, porque ela tinha estado a gritar comigo o tempo todo. Eu sentia-me como se estivesse a passar pelos EUA para vender droga. Fiquei tão nervosa e frustrada com toda a situação que desci e mandei chamar o chefe de segurança da fronteira.

Um senhor altíssimo veio e eu expliquei-lhe toda a situação. Que eu própria era investigadora em Harvard exactamente para melhorar questões interculturais. Ele pediu desculpa milhares de vezes, perguntou se eu queria que ele ligasse para à tal senhora, à minha frente. Eu disse: "Não, mas espero que faça algo com estas pessoas. É a imagem do seu país e não consigo imaginar como ela trataria uma pessoa do meu país que não falasse fluentemente o vosso idioma como eu e apenas com boas intenções!".

 

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