Quem vejo quando me olho ao espelho?

por José Luís Nunes Martins

A imagem que o espelho me oferece é uma sombra do que sou. É visível, mas não se pode tocar.

A imagem é real. Posso vê-la diante de mim. Mas é uma verdade crua e uma mentira cruel, porque eu não sou apenas o que ali se revela. Por isso, procuro histórias passadas em cada detalhe do meu rosto. Surgem-me perguntas, muitas, e questiono-me naquele reflexo que nada me diz... e acabo por desesperar por nada ouvir. Pergunto de novo, como se a minha determinação pudesse intimidar o silêncio… E o silêncio responde-me com mais silêncio.

Talvez eu próprio, aquele que pergunta, seja a resposta que a vida me dá.

Estou aqui e sinto a vida em mim. Talvez eu precise de aprender a aceitar os silêncios, não como vazios de sentido, mas como espaços e tempos que a vida reserva para si mesma, não para mim.

Cada um de nós é obrigado a passar longas horas nos desertos da existência. São tempos tão duros quanto importantes. Porque quanto mais crua e pura é a verdade, mais dói. Mas mais nos purifica e aperfeiçoa.

É a mim que cabe a decisão de ser, dentro do fruto já maduro do meu passado, a semente do futuro que quero criar.  

Os que se deixam perder nos desertos, morrem... e há também muitos que se deixam ficar presos na relação de si consigo mesmos.

Se compreender que há uma missão para cada dia e que a vida tem sentido apesar de todas as dores… então, talvez me torne digno da vida que me foi confiada, começando a olhar para os outros e deixando de olhar para mim.

 

 

(ilustração de Carlos Ribeiro)

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