Viagens de um Solteiro: As facas de Aiko

por Marta Pimenta de Brito


Era a primeira vez que deixava a casa dos meus pais para ir viver para a Alemanha. Primeiro fui para um hostel, também pela primeira vez, e resolvi partilhar um quarto com outras três mulheres. Eram todas turistas, eu era a única que vivia lá, ou melhor, começava a viver naquela nova cidade.

Estava a tentar adaptar-me, tudo era novo. Queria encontrar a minha nova casa. É bom estar num hostel como turista, não para viver quando precisas de te levantar cedo e começar um horário de trabalho. Queria também desfazer a minha mala gigante. Tinha comprado em Portugal tantas coisas, até champôs, porque achei que na Alemanha tudo seria muito mais caro, e eu tinha só uma pequena bolsa. Perguntei no meu Instituto se me podiam ajudar a encontrar um quarto para alugar.

Disseram-me que tinham enviado um email a perguntar às pessoas e havia um professor de outra universidade que tinha um quarto para alugar. Há três meses que eu também recebia alguns anúncios do Serviço Internacional de Estudantes, mas tinha sempre em mente o conselho do meu pai: primeiro ficas num hotel, vês a cidade com os teus próprios olhos e depois escolhes onde morar e com quem. Mas eu já estava há três dias no hostel. Parecia duas semanas.

Queria mesmo desfazer a mala e começar a minha nova vida. Então, um dia eu telefonei a esse professor. Ele disse-me que estava em casa e se eu quisesse podia poder passar e ver o quarto. Fui depois do almoço, apanhei o metro e segui a morada. Era uma zona muito bonita, com muitas árvores e boas casas. Mas havia exactamente lá um cemitério. “Oh meu Deus, viver perto de um cemitério!”, pensei. Parecia-me assustador... Podia ter pesadelos e não dormir.

“Bem, vamos ver o quarto”. Toquei à porta e apareceu um senhor alemão já com a sua idade. Parecia simpático. Subi as escadas e ele mostrou-me o quarto. Era um quarto pequeno com uma cama pequena. Mas tinha uma grande janela e, felizmente, não para o cemitério. O apartamento tinha um estilo agradável, muitos livros e arte. Gostei. E havia uma varanda cheia de lindas flores.

“Mas, e o cemitério?”. Era exactamente essa a vista. O senhor compreendeu a minha preocupação e disse-me: “não se preocupe, este é um cemitério antigo, há muitas pessoas que vão lá passear e eu vou muitas vezes lá com os meus netos, eles adoram ver os anjos”. Devo acreditar nas suas palavras?

Eis então o momento chave. Vamos à cozinha e ele mostra-me muitas facas na parede. Disse-me que isso era para Aiko. Comecei a imaginar: Aiko é um asiático baixinho que gosta de me colocar contra a parede e atirar facas! “Oh meu Deus, que assustador!”. Mantive-me calma sem demonstrar medo e fomos à sala de estar. Lá senti paz. O senhor disse-me que tinha tido uma boa impressão minha e que  estava pronto para me alugar o quarto. Naquele momento, eu gostaria de nunca ter deixado a casa dos meus pais. Sozinha, tenho que sair do hostel e tenho que decidir. “Sê optimista, pensa positivo”.

Então disse-lhe: “Sim, fico com o quarto”. Assinei um documento de acordo e disse-lhe que ia ao hostel buscar as minhas coisas. Estava com medo, mas fiquei feliz. Na primeira noite, é claro, coloquei uma cadeira contra a parede e não dormi bem a noite inteira.

Mas o tempo passou e depois de duas semanas percebi que Aiko era uma japonesa, uma pianista, que precisava das facas para preparar a sua comida. E também percebi o quanto era bom passear pelo  cemitério e o prazer de me sentar na varanda e olhar para um cemitério verde em vez de olhar para outro prédio e dar de caras com as pessoas a tratar da casa. Quanto ao senhor, hoje em dia chamo-lhe o meu “Avô Alemão”!

Agradeço a Deus por ter estado a meu lado naquele momento difícil!

 

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