Pés na terra, cabeça no céu

por José Luís Nunes Martins

A fé não é coisa de velhas beatas. É algo que exige coragem, força e valor. Está apenas ao alcance de homens e mulheres que decidem ser valentes, prontos para tudo.

Estar pronto não é uma vontade, não é querer estar pronto. É ter feito tudo o que é necessário. Não importa o que custou ou demorou.

Nos nossos dias, é estranho que a expressão homem humilde seja sinónimo quase exclusivo de homem miserável... alguém que os demais, sendo diferentes – ou diferenciados, como se chamam a si mesmos – reconhecem como digno da sua pena e compaixão. Ora, aqui parece existir um claro sinal de que não convém cairmos nesta condição, tão miserável aos olhos da multidão.

As asas de uma águia pesam-lhe, mas permitem-lhe voar. Sem elas, seria apenas mais uma ave de capoeira. Mais leve, mas muito menos livre.

A fé não é uma venda que tapa os olhos, mas uma janela que abre horizontes para lá do que a razão poderia, só por si, contemplar. Também não é uma verdade cómoda em que alguns se refugiam para não terem que pensar, mas sim um desafio que incomoda, porque impele sempre a novas buscas, obriga ao desassossego de uma luta constante, exige que se caminhe ao encontro do outro lado da existência…

A humildade é a condição da fé. Sem a qual ninguém é elevado acima do pó e da lama.

Acreditar é voar, porque implica ir por onde e para onde não há chão. Mas não se pense que aí se chega através da convicção no nosso próprio valor, não. É, sim, pela consciência no nosso desvalor.

A fé dá-nos firmeza, mas sem termos onde pousar os pés nem onde reclinar a cabeça. Faz com que acreditemos numa rocha firme que existe sem que a possamos ver… a fim de que possamos existir sem ter de fingir.

 

(ilustração de Carlos Ribeiro)

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