Viagens de um Solteiro: A piscina de Zurique

por Marta Pimenta de Brito

Estava a trabalhar no Instituto (na Alemanha) quando o telefone tocou. Era o professor da Suíça a perguntar se eu podia ir no dia seguinte a Zurique para a entrevista com o outro professor. Era a segunda entrevista.

A primeira vez que fui, não gostei de Zurique. Vi muitas pessoas, com um aspecto estranho, a falar sozinhas no comboio e tudo parecia tão cinzento. Pessoas, casas, céu. Porque é que hei-de mudar de uma cidade tão agradável e aconchegante?

Disse-lhe, “Ok, amanhã de manhã estou aí”. Saí do escritório, passei pela estação, comprei o meu bilhete e fui para casa preparar as minhas coisas. Na manhã seguinte, muito cedo apanhei o metro e depois o comboio. Cheguei a Zurique antes da reunião. Fui a pé até à clínica e à hora marcada estava lá.

As coisas não mudaram, tudo era cinzento. Como é que as pessoas em Portugal podem dizer que, na Suíça, as clínicas parecem hotéis? Ok, esta tem bom aspecto, mas, como um hotel?! Toquei à porta e disse que tinha uma reunião com o Dr. Mohler. Uma senhora veio-me receber e acompanhou-me. O escritório do Dr. Mohler ficava no último andar de outro prédio.

Atravessámos um jardim muito bonito e o escritório dele fez-me lembrar o sótão de casa dos meus pais onde estudei a vida toda. Tinha também uma pequena janela como a minha e muitos livros. A única diferença era que era cinzento e não branco e que tinha uma enorme mesa de reuniões.

Sentei-me e os dois professores começaram a dizer coisas agradáveis sobre o meu currículo. Realmente queriam que eu fosse trabalhar com eles. Mas eu devia estar a  parecer muito pouco entusiasmada. O Dr. Mohler perguntou-me sobre os meus hobbies e eu disse-lhe: velejar.

Respondeu-me imediatamente: “Então é óptimo porque tenho muitos amigos com barcos aqui e podemos organizar algo”. Olhei para ele e não pude evitar as minhas próximas palavras: “Navegar onde, nesta piscina?”.

Estava a referir-me ao lago de Zurique. Eles realmente deviam precisar mesmo de mim. Como se pode contratar uma pessoa que é tão desbocada?

Com o tempo pude entender o quanto gosto do ambiente intercultural da Suíça. Mas para nadar no lago levei quatro anos, mesmo que as pessoas continuassem a dizer que a água era tão limpa que até se podia beber. E vela nunca fiz, por mais estúpido que possa parecer.

Entretanto, um ano depois daquele mesmo dia perdi infelizmente o Dr. Mohler que faleceu exactamente naquele escritório vítima de um AVC aos 47 anos de idade. Sim, muito, muito novo.

Agradeço, contudo, a Deus a oportunidade que me deu de conhecer este profissional incrível que após seis meses de trabalhar já me dizia que um dia eu ia chegar à Universidade de Harvard, de onde ele tinha acabado de regressar!

 

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