Viagens de um Solteiro: Menina Criminosa

por Marta Pimenta de Brito

Vivia em Bruxelas, enquanto escrevia a minha tese de doutoramento e investia em networking. Como ainda trabalhava na Universidade de Zurique, tinha que ir uma vez por mês à Suíça e passar uma semana lá.

Depois de tantos anos a viver em Zurique, tinha que fazer a mudança: levar todas as minhas coisas de Zurique para Bruxelas. Como tinha deixado o meu quarto na residência de estudantes em Zurique, tinha toda a tralha na cave do meu escritório. Havia muito espaço. Três pisos inteiros subterrâneos para armazenamento. Imagine-se: roupas, coisas de cozinha, livros e muito papel - material de doutoramento.

Então pensei: “não quero pagar para enviar isto para outro país, vou fazer isto sozinha, passo a passo”. Que ideia brilhante! Então, durante seis meses, em vez de voar uma hora, ia sentada num comboio durante 13 horas passando por três países: Bélgica, França e Suíça.

Como em todas as situações, tive que pensar positivo. Então, primeiro pensei que podia trabalhar durante as viagens, podia fazer grandes contactos, pois era o comboio oficial que transportava as pessoas importantes da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu, e também podia observar culturas: interacções entre pessoas.

O que não pensei foi na mala gigantesca que tinha de fazer e desfazer de cada vez, e nos músculos que tive de desenvolver para gerir aquela viagem com a minha mala gigantesca. E na polícia de fronteira com quem tinha sempre de falar no comboio.

Sempre as mesmas perguntas: “o que faz na Suíça?”, “O que faz na Bélgica?”, “Porque é que vai de comboio em vez de voar?”, “O que tem na sua mala gigante?”, “Porque é que tem a impressão digital no seu bilhete de identidade?”.

E sempre as mesmas respostas: “Trabalho na Suíça. Estou a escrever a minha tese na Bélgica, porque preciso de me isolar de toda a agitação do escritório suíço e estou a preparar a continuação da minha carreira nas organizações europeias. Roupa, livros e material de doutoramento. Porque em Portugal é assim!”.

Um dia, um deles disse-me: “Sabe uma coisa? É melhor usar o seu passaporte em vez do seu bilhete de identidade, porque noutros países, apenas as pessoas criminosas têm a impressão digital na identificação e pode ter problemas desnecessários nas fronteiras”. “Bem, obrigado, nunca tinha entendido o porquê, mas percebia sempre que havia algo de errado com a minha identificação...”.

O melhor foi que depois de todas estas 156 horas de comboio passando por três países, a vida fez com que eu me mudasse de Bruxelas. Que frustração! Mas que experiência para a vida: agora penso duas vezes antes de comprar qualquer coisa. Eu realmente preciso disso? E escolho voar sempre que tenho de fazer uma escolha entre os transportes.

Agradeço a Deus por me colocar sempre pessoas simpáticas no caminho!

 

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